Atualmente meu gênero musical favorito é o Pop, e talvez influenciado por este gosto, People of Note me chamou bastante a atenção desde o primeiro material de divulgação que vi. A direção de arte é riquíssima e a temática musical mais voltada ao Pop não é apenas um pano de fundo, mas algo que transparece em cada caminho seguido pelo jogo.

Estética vibrante e os rumos da narrativa
A trama de People of Note coloca você na pele da Cadence, uma aspirante a estrela pop na vibrante cidade de Chordia que, após ser rejeitada no concurso “Noteworthy”, percebe que seu talento não é o suficiente para desbancar a hegemonia da boy band Smolder. O que começa como uma jornada de busca por reconhecimento se transforma em um tipo de expedição pelo continente de Note, onde Cadence recruta músicos de gêneros distintos — como o roqueiro veterano Fret ou a DJ Synthia — para formar uma banda diversificada. No entanto, a narrativa acaba se expandindo para um conflito maior envolvendo uma trama nefasta que ameaça o próprio conceito de música no mundo, meio que forçando você a navegar por biomas temáticos enquanto lida com um roteiro que, embora cheio de referências à cultura pop, por vezes se perde no ritmo ao tentar equilibrar o drama pessoal da protagonista com a urgência de salvar o cenário musical global.

No fim das contas, a narrativa acaba sendo o maior gargalo da experiência em People of Note. Embora os dilemas pessoais da protagonista sejam humanos e até certo ponto legais de acompanhar, toda a subtrama de conspiração global contra a música soa mais como um pretexto artificialmente empurrado do que um arco devidamente construído. Ao cruzar a metade da jornada, aquele propósito “épico” de “salvar o mundo” já não possuía fôlego para me manter motivado; o desenrolar da história falha em criar uma conexão real entre a intimidade da personagem e a grandiosidade forçada dos eventos, tornando o ato final um exercício de persistência.
Algo que me surpreendeu muito foi a parte sonora. Diferente de muitos títulos que apenas flertam com o gênero, aqui temos canções cantadas de altíssima qualidade que trazem uma vibe de “musical” genuína. Como a narrativa não me pegou tanto, depois de algumas horas de jogatina, o que me fez seguir em frente na maioria das vezes foi justamente o desejo de ouvir uma nova canção.

O ritmo do combate e o desafio estratégico
O sistema de combate de People of Note funciona através de uma estrutura que mescla tática por turnos com elementos de ritmo. O loop se mantém interessante justamente por não se resumir à escolha passiva de comandos em um menu; cada ação exige sincronia com a batida da trilha sonora para maximizar o dano e a eficácia das habilidades. Para quem já está familiarizado com RPGs de turno, o funcionamento é absorvido rapidamente, funcionando como uma releitura do gênero com alguns “temperos” adicionais.
No entanto, embora o sistema seja competente, ele acaba esbarrando na falta de variedade. Apesar de haver um bom número de opções, as habilidades acabam sendo muito parecidas entre si, o que compromete a sensação de frescor com o passar do tempo.
Chega um ponto em que os combates deixam de ser decididos pelas características estratégicas de cada poder e passam a ser movidos apenas pela expressividade da força em si. Essa semelhança excessiva entre as possibilidades faz com que o engajamento técnico se perca, transformando o que deveria ser um duelo tático em uma repetição das ações que você está acostumado a utilizar.

No que diz respeito à parte estratégica, o jogo apresenta um grau de dificuldade interessante, especialmente ao selecionar as dificuldades mais altas. No entanto, essa dificuldade muitas vezes acaba sendo voltada para a sua capacidade de ler as ações do oponente e memorizá-las, exigindo que você escolha as respostas certas no momento exato.
Como não há uma variação expressiva no comportamento dos inimigos, nem um meio de fazer uma leitura detalhada deles dentro do próprio jogo — já que ele não detalha informações técnicas sobre os adversários —, a estratégia se torna um exercício de memorização e tentativa e erro. Ainda que alguns deles possuam habilidades que precisam ser lidadas com cuidado, o combate acaba virando uma questão de decorar padrões, o que, somado à falta de informações claras, acaba reforçando aquele cansaço de sentir que estamos apenas repetindo um processo em vez de realmente adaptar a estratégia.

Exploração, tempo e o saldo da jornada
Conforme você avança no jogo, certas arestas começam a comprometer a experiência geral, especialmente no que diz respeito à qualidade de vida. Para quem valoriza o tempo e uma navegação fluida, a ausência de indicadores claros e marcadores de objetivo é um ponto crítico.
O jogo tem o hábito de soltar a mão do jogador em momentos inoportunos, exigindo um entendimento da geografia que, muitas vezes, resulta em uma sensação de tempo desperdiçado e frustração. É o tipo de atrito que interrompe o fluxo de uma obra que, mecanicamente, já sofre com o preenchimento artificial. Lembro de um diálogo no jogo que brinca com esse aspecto de experiência “à moda antiga”, focada na descoberta. Mas os tempos são outros, e o tempo hoje é um ativo de vida muito particular e valioso. Da mesma forma que alguém pode apreciar passar vários minutos tentando se encontrar em uma região, eu prefiro avançar — ainda mais em um jogo que não se conectou de forma tão profunda comigo.

A experiência geral com People of Note deixa um gosto agridoce. É inegável o capricho na direção de arte e o esforço para entregar uma trilha sonora que realmente sustenta a proposta de um musical, mas o brilho estético não consegue esconder o desgaste mecânico. Para quem, como eu, preza por um bom equilíbrio entre desafio e respeito ao tempo, o excesso de preenchimento artificial e a falta de ferramentas de qualidade de vida pesam bastante. O jogo acerta ao oferecer boas opções de acessibilidade como a opção de desabilitar os puzzles, já que eles parecem criados estritamente para estender a duração do jogo, mas falha ao não perceber que seu loop principal — tanto narrativo quanto de combate — já havia entregado tudo o que tinha de interessante muito antes da reta final.
People of Note transborda estilo e traz músicas pop de altíssima qualidade que sustentam a experiência. O jogo ganha pelos sentidos, mas entrega uma narrativa que não está à altura da sua proposta. Entre os altos das canções e os baixos do cansaço, a jornada resulta em uma montanha-russa autêntica e agridoce.
Mais detalhes da minha experiência com o jogo estão no Joguindie Journal.
A cópia do jogo utilizada para essa review foi generosamente disponibilizada pela assessoria de imprensa da Annapurna, distribuidora do jogo, a qual agradeço pela confiança.

