A relação que a gente tem com a música é um negócio curioso demais se pararmos para pensar mais a fundo. Ela mexe com memória afetiva de um jeito muito único. Pessoalmente, como sou amante de música, gosto de tudo um pouco. Cresci ouvindo muito rock alternativo americano dos anos 2000, então quando joguei Mixtape, me senti instantaneamente abraçado — mesmo que a maior parte da trilha sonora fosse de músicas que eu ainda não conhecia. É incrível como a energia certa consegue transmitir uma sensação de nostalgia pura e familiaridade, mesmo diante do novo.

Mixtape é um jogo sobre a música certa, na hora certa, perfeitamente encaixada na vida de três amigos em sua última noite juntos. Coisas da vida vão separá-los e, diante dessa despedida, a personagem principal (Rockford) preparou uma música para cada ocasião, conseguindo assim eternizar instantes futuros e relembrar momentos passados. O jogo conta com músicas de DEVO, Roxy Music, Lush, The Smashing Pumpkins, Iggy Pop, Siouxsie and the Banshees, Joy Division, e mais.
Os três amigos aproveitam seus últimos instantes juntos — desculpe o estereótipo, mas ao melhor estilo adolescente norte americano, o tipo de dinâmica de grupo que a gente já viu incontáveis vezes nos filmes. A cumplicidade deles é um ponto alto; é notável o quão bem entrosados são e o quão potente é essa amizade. O drama adolescente é sutil, bem desenvolvido e, apesar de não serem o tipo de personagens exemplares, eles são muito divertidos de acompanhar.

Apesar de achar todos os personagens muito bem colocados, não consegui me conectar de verdade com nenhum deles — nem mesmo com a protagonista, que é divertida e cheia de personalidade. Acho que essa falta de conexão aconteceu muito em decorrência do drama simplório deles. São dores adolescentes que a minha idade atual já não vê com a mesma sensibilidade de anos atrás, somadas a esse retrato da adolescência norte americana — um estilo mais distante da realidade do adolescente brasileiro, ao meu ver.
Jogar Mixtape é, na maior parte do tempo, sobre movimentar a Rockford. De fato é uma mecânica de poucas interações, mas particularmente gosto, ainda mais nesse tipo de proposta voltada para a narrativa. Durante a jogatina, fica perceptível que a ideia do jogo nunca foi te dar o controle total, mas sim te colocar no papel de um telespectador que interage sutilmente com os acontecimentos.

Talvez por entenderem quais interações funcionavam melhor, algumas mecânicas, como a de voar, por exemplo, foram bastante reutilizadas, o que me pareceu um caminho menos criativo. Como achei o voo e as demais interações prazerosas, a repetição não chegou a me incomodar, mas é um ponto que, se avaliado friamente, pode pesar um pouco considerando a duração da experiência.
Mixtape é visualmente maravilhoso, mas sua trilha sonora consegue ir além, sendo a verdadeira alma da experiência; a curadoria musical é cirúrgica, com canções memoráveis que dão o ritmo de cada momento do jogo. É um casamento perfeito: a estética enche os olhos com cores e distorções que simulam o ápice da adolescência, enquanto o som te transporta para a realidade daqueles personagens.

Ao chegar nos créditos, a sensação foi boa e me remeteu um pouco àquela que tive com Journey anos atrás: um sentimento libertador evocado pelo constante movimento. Porém, Mixtape não se conectou comigo, mesmo com todo o seu esmero, acontece.
Mais detalhes da minha experiência com o jogo estão no Joguindie Journal.
A cópia do jogo utilizada para essa review foi generosamente disponibilizada pela assessoria de imprensa da Annapurna, distribuidora do jogo, a qual agradeço pela confiança.
